MARIA NA HISTÓRIA

Maria na vida da Igreja dos primeiros séculos

por Fidel González


25/05/2015 - Segunda parada da nossa viagem sobre a incidência da Mãe de Deus na história dos homens. Nos primeiros séculos do cristianismo, são instituídas as primeiras festas marianas e são construídas igrejas em honra à Santa Virgem.

Que lugar a Virgem Maria ocupa na vida da Igreja dos primeiros séculos? Essa pergunta pode ser respondida levando em consideração tanto o culto mariano, quanto as colocações dos Pais da Igreja a esse respeito. Os Pais da Igreja viram com clareza o relacionamento existente entre Nossa Senhora e o seu Filho. Se eles falam de Maria, o fazem porque veem nela a mãe do Deus encarnado. Cristo, de fato, em virtude de nascer de Maria, é verdadeiramente homem; mas pelo fato de ser eternamente gerado pelo Pai, é verdadeiramente Deus. O concílio de Éfeso, terceiro grande concílio ecumênico (431), definirá exatamente isso e será o primeiro que falará explicitamente de Maria como “Mãe de Deus” (Theotokos). “Neste contexto, os antepassados entendiam como elemento decisivo em relação a Cristo também o milagre do nascimento virginal de Cristo em Maria, que representava para eles o sinal inequívoco da divindade daquele menino que veio ao mundo de modo tão extraordinário e prodigioso. Por meio da meditação das Sagradas Escrituras, os antepassados conseguiram compreender e explicitar outra grande verdade mariana: a colaboração da Santa Virgem na obra da salvação. Essa vocação de colaborar com o Deus redentor é evidenciada pela posição de Maria em relação a Cristo, o novo Adão, na qualidade de nova Eva. Como tal, Maria reparou os males da primeira Eva mediante a sua posição antitética em relação à conduta desta última no paraíso terrestre” (Textos marianos do primeiro milênio, 1988). 


Na história da Igreja, o concílio de Éfeso assinala um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, de partida. Nele, o discurso sobre Cristo se torna central e, por isso, a figura da mãe de Deus, sendo intimamente ligada à de seu Filho, passa a estar em primeiro plano na reflexão dos Pais da Igreja. A definição explícita da maternidade divina de Maria, proclamada solenemente naquele concílio, enchia os cristãos, especialmente no Oriente, de estupor e admiração: como Maria podia conter em si o Infinito, como podia nascer dela o Inato, como podia chamar seu o Filho de Deus? A sua maternidade virginal e a sua pureza inviolada também provocaram sentimentos semelhantes. E nascia daí a grande confiança com a qual invocavam a intercessão de Maria junto a Deus para todas as necessidades dos homens. “Nessa ocasião, começam a surgir igrejas e santuários marianos em toda parte. Pensemos, por exemplo, na grandiosa basílica liberiana de Roma, que Sisto III mandou reconstruir, depois do concílio de Éfeso, e dedicar à mãe de Deus. A partir de então há uma explosão da piedade e do culto mariano sobretudo no Oriente, onde a imagem da Virgem se torna familiar e popular e começa a brilhar em toda a sua grandeza e dignidade de Mãe do Senhor” (Textos marianos do primeiro milênio, 1, 45). Koehler escreve: “Depois de séculos de luta contra o paganismo, depois de uma longa maturação da oração cristã a Deus no contexto cristológico e eclesial, depois da lenta formação do culto dos mártires na subordinação ao culto de idolatria, devido a Deus, o culto mariano se afirma como uma exigência da fé e sem nenhuma contaminação externa que pudesse corrompê-la”. (Maria nos primeiros séculos, Ed. Vercelli 1971). 
Um dos primeiros aspectos sublinhados pelos Pais da Igreja antes do concílio de Nicéia (Turquia, 325 d.C.), quando falam de Nossa Senhora, é o de apresentá-la como a nova Eva, reparadora da culpa da primeira mãe. O verdadeiro estudo teológico sobre Nossa Senhora, que começou no Oriente baseado sobre a Bíblia e sobre a Tradição transmitida pelos antepassados, levou à definição do dogma da maternidade divina de Maria proclamado contra Nestorio no concílio de Éfeso, em 431. Enquanto os Pais antecedentes insistiam sobre o conceito de Maria como nova Eva, os Pais da Igreja daquela época, durante esse concílio e também depois, insistem nos seus documentos sobre a maternidade divina, parte da fé católica e base de toda a teologia mariana. Unidas a essa grande questão estão aquelas que falam sobre a perpétua virgindade de Nossa Senhora, a sua imunidade de qualquer mancha de culpa e sobre a sua magnificência, associada à de Cristo Senhor. Também começa a encontrar eco a afirmação da cooperação de Maria na distribuição de todas as graças.

“Sob a tua proteção”
A Igreja sempre viu com crescente força a missão de intercessão de Maria junto ao seu filho, Jesus. Um papiro egípcio do século III contém a conhecida oração Sub tuum praesidium (Sob a tua proteção) que, depois, foi incluída na liturgia romana, ambrosiana, bizantina e copta. Essa oração, considerada a oração mariana mais antiga, é uma invocação confiante na proteção da Mãe de Deus para a libertação de todos os perigos. O motivo de tal confiança é claro: os primeiros cristãos descobriram em Maria a “cheia de graça”, a “bendita entre todas as mulheres”. Na antiguidade cristã a Virgem Maria é colocada especialmente como modelo das virgens. Num compartimento do século III das catacumbas de Priscila, na rua Salaria, em Roma, encontramos a representação de um bispo que, impondo o sagrado véu a uma virgem, lhe indica Maria Santíssima como modelo. No século IV, são Gregório Nazianzeno (389) relata o apelo confiante de uma virgem cristã a Maria. No mesmo século, santo Ambrósio exorta as virgens cristãs a recorrerem à Virgem que tem por nome Maria. Os Pais também insistiram sobre a imitação de Maria; assim, santo Ambrósio afirmou que “a vida de Maria é, por si só, escola para todos”, e por isso exorta a todos a imitá-la (De Virgi II, c.2, n.9, 15; c.3, n.19). 

Oração Sub tuum praesidium


(oração em um papiro copto (egito), século III)

À vossa proteção recorremos,
Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas
em nossas necessidades,
mas livrai-nos sempre de todos os perigos,
ó Virgem gloriosa e bendita. 
(Horologion, 231-232) 

(Senhora nossa, Medianeira nossa, Advogada nossa;
com vosso Filho reconciliai-nos,
a Vosso Filho recomendai-nos,
a Vosso Filho apresentai-nos. Amém).

Por isso a Igreja deu a Nossa Senhora um culto especial que é chamado pelos teólogos de iperdulia (cfr. são Tomaz, Summa Teologica) pela sua singular excelência como Mãe de Deus. Isso quer dizer uma honra especial, superior a que se dá aos santos, que também têm um culto ou veneração que é chamado de dulia. A singularidade do culto a Nossa Senhora em relação ao dos santos se dá devido à santidade única da Virgem Maria, superior a dos outros santos em grau, não em espécie. Na verdade, se torna diferente em espécie se tomamos como motivo de tal culto a sua singular dignidade de Mãe de Deus, o que a coloca em uma ordem própria, especificamente superior àquela na qual se encontram todos os outros santos (são Tomás, Summa Teologica). Os cristãos sempre entenderam o culto a Maria como veneração, invocação e imitação. 

O culto litúrgico nos primeiros séculos


A Igreja sempre rendeu culto a Nossa Senhora de maneira variada e crescente, seguindo-se, como em todos os outros campos da teologia cristã, o desenvolvimento do seu pensamento teológico. Um primeiro momento, do ponto de vista histórico, é aquele que vai dos primórdios da Igreja até o concílio de Éfeso (431). É um período preparatório que culmina com uma apoteose litúrgica. Nesse período cresce sempre com mais força e clareza a veneração a Nossa Senhora, através das diversas formas de culto litúrgico e das festas propriamente ditas. Porém, no Oriente, só encontraremos uma verdadeira festa mariana na segunda metade do século IV, e no Ocidente, no século VI. O fato de as festas litúrgicas não terem ainda adquirido, até esse período, a fisionomia que teriam depois não significa uma dificuldade em relação ao culto mariano. 


O desenvolvimento do pensamento teológico sobre Cristo durante o século IV coloca cada vez mais em evidência o papel essencial na redenção devido a Nossa Senhora e, contemporaneamente, cresce sempre mais o conceito da sua suma santidade. A expressão “toda santa” (panaghia), referindo-se a Nossa Senhora, é da primeira metade do século IV. Encontramo-la pela primeira vez no escritor eclesiástico, Eusébio. Depois, essa expressão se tornará comum na literatura bizantina. 


Portanto, no tempo apostólico, já existia uma grande veneração em relação a Maria, a Mãe do Senhor, mesmo que ainda não tivesse sido instituída uma festa litúrgica específica para ela, como também não havia para muitos aspectos da vida do próprio Senhor. Tal veneração tinha o seu fundamento nas Sagradas Escrituras. Os Atos dos Apóstolos a apresentam unida aos discípulos na espera do Espírito Santo (Atos 1,14). Os Padres Apostólicos, como santo Inácio, colocam em relevo a sua divina maternidade. Durante o século II, Giustino, em Roma, Ireneo, em Lion e Tertuliano, em Cartagine, partindo do paralelo Adão-Cristo, colocado com tanta força por são Paulo (Rom 5,12-21), desenvolvem um paralelo análogo: Eva-Maria. A antiquíssima fórmula do símbolo batismal, o Credo (séc. II), evoca continuamente aos fiéis a grandeza de Maria como virgem e mãe do Salvador: Natum ex Maria Virgine. Tudo isso demonstra a singular veneração das primeiras gerações cristãs a Maria. Um reflexo significativo de tal veneração e também um testemunho da confiança na intercessão de Nossa Senhora está nos copiosos monumentos da arte funerária romana dos séculos II e III, cujas catacumbas possuem imagens de Nossa Senhora. 


Desde os primórdios da vida da Igreja, através dos padres, Maria sempre foi apontada como modo de compreender a virgindade cristã. A partir do século III, com a difusão entre os cristãos do monasticismo, da vida consagrada na virgindade, do ideal da virgindade e da obediência, Nossa Senhora é tomada como modelo das virgens cristãs. 


Já nos séculos V e VI encontramos na vida litúrgica da Igreja expressões concretas em honra a Nossa Senhora que exprimem esta fé convicta e confiante na sua intercessão junto a Cristo. Assim, no Cânone romano da missa encontramos Nossa Senhora elevada ao primeiro posto. 

As festas de Nossa Senhora


Parece que a primeira festa mariana foi instituída no século IV, na Síria, precisamente em Antioquia, sede de um dos três primeiros grandes Patriarcados do Oriente, onde os discípulos do Senhor foram chamados pela primeira vez de “cristãos”, conforme os Atos dos Apóstolos. Em Constantinopla também já existia uma festa litúrgica antes do concílio de Éfeso (431). De fato, o patriarca de Constantinopla, Proco, pronunciou um discurso em 429, na presença do próprio Nestorio (que negava a maternidade divina de Maria), num dia que era totalmente dedicado à glorificação de Maria. Porém, o concílio de Éfeso será um ponto de influxo e influência determinando um rápido e florescente desenvolvimento do culto litúrgico de Nossa Senhora no Oriente e no Ocidente. A primeira festa mariana está documentada através de um lecionário armeno escrito em meados do ano 450: fala do dia “15 de agosto. É o dia de Maria Theotokos”. Entre 455 e 479, um sacerdote de Jerusalém, chamado Crisipio, fala da mesma festa em uma de suas homilias - cujo texto litúrgico foi encontrado. A festa de Theotokos é, então, uma das festas marianas mais antigas. Primeiramente foi celebrada na Síria e, depois, por outros povos orientais e celebrava a maternidade divina da puríssima Virgem. No Oriente, já entre os séculos VI e VII, encontramos estabelecidas as grandes festas marianas: Anunciação, Assunção, Natividade, Apresentação e Concepção, com belíssimas invocações, hinos e cantos a Maria, como o já lembrado Sub tuum praesidium e a lembrança de Maria no Memento do Cânone da missa. Todas as festas marianas estão intimamente relacionadas com o Mistério de Cristo e são consideradas como festas do Senhor. Entre as festas marianas, a da Dormição ou Assunção de Maria rapidamente assume um lugar de proeminência. De fato, o imperador Maurício, em 600, prescreve a sua celebração em todo o Império no dia 15 de agosto. 
O Ocidente foi um pouco mais lento na sua devoção mariana. Não há documentação de nenhuma festa antes do século V. Encontramos uma na Gália, no século VI. São Gregório de Tour (594) a testemunha: provavelmente era celebrada no mês de janeiro. Na Espanha também, e estava ligada com o tempo de Advento, em dezembro. O IX concílio de Toledo estabeleceu o dia 18 de dezembro, oito dias antes do Natal, para tal festa que, constantemente, é chamada de “da espera”. Em Roma, no final do século VI, existiam várias alusões marianas durante o Advento. Celebrava-se, de modo especial, como festa mariana, o dia 1 de Janeiro, Oitava de Natal, com textos litúrgicos carregados de conteúdo mariano, que são os mesmos que usamos ainda hoje. No século VII, em Roma, as grandes festas marianas eram solenemente celebradas, como atesta o Liber Pontificalis (Livro dos Pontífices) que trata das disposições do papa Sergio I sobre o assunto (687-701). A chegada a Roma dos monges que fugiram do Oriente por ocasião das invasões persas e árabes contribuiu para a difusão dessas festas. 

As primeiras igrejas


Desde o tempo dos apóstolos, o papel de Maria e a veneração a ela teve contínuo crescimento, assim como a consciência da Igreja sobre o conteúdo da fé. O concílio de Éfeso foi um ponto decisivo para o desenvolvimento do culto mariano pelas igrejas dedicadas a ela, das imagens colocadas em veneração e das várias festas marianas. Em relação às igrejas, é preciso lembrar que na Palestina, durante o século V, foram construídas duas: uma em Jerusalém sobre o lugar apontado como sepulcro de Nossa Senhora e outra sobre o monte Garizim. No Egito, em Alexandria, a antiga igreja patriarcal será dedicada, no século V, a Nossa Senhora. Na Itália, a basílica de Santa Maria Maior, em Ravena, também remonta ao século V. Em Roma, o mais antigo catálogo de igrejas, acrescentado ao roteiro De locis sanctus martyrum, do século VII, enumera quatro igrejas marianas: Basilica quae appellatur Sancta Maria Maior, isto é, Santa Maria Maior, a célebre basílica no Esquilino, construída pelo papa Liberio (352-366) e reformada por Sisto III (432-440) que a decorou com maravilhosos mosaicos, que ainda existem e devem ser considerados como um monumento histórico do concílio de Éfeso; Basilica quae appellatur Sancta Maria antiqua, que foi construída no Foro romano e parece ser a igreja mariana mais antiga de Roma; Basilica quae appellatur Sancta Maria Rotonda, quer dizer, o Pantheon, transformado em igreja por Bonifácio IV (608-615) que a dedicou à Beata Virgem e a todos os mártires; Basilica quae appellatur Sancta Maria Transtiberim, o antigo título (espécie de igreja “paroquial”) de Calisto (engenheiro de catacumbas e papa), que já era dedicada à Virgem pelo menos desde o século VI. No decorrer dos séculos VII e VIII não havia uma cidade no Oriente e no Ocidente que não tivesse uma igreja dedicada a Nossa Senhora.


Com a construção e a fundação de igrejas dedicadas a Nossa Senhora, também entrou em uso o culto a suas imagens. Muito célebre é uma que está no Oriente, atribuída a são Lucas (Hodegetria) e que a imperatriz Eudossia enviou de Jerusalém a Pulcheria, em Constantinopla, em 451. Ela se tornou, depois, o modelo de inumeráveis imagens marianas. Uma descoberta recente feita em Roma, na igreja de Santa Maria Nova, trouxe à luz uma imagem de Nossa Senhora que provém provavelmente da Santa Maria Antiga e que remonta ao século V. As igrejas dedicadas a Maria se espalharam de tal forma por todos os lugares que, no século IX, todas as cidades e países já possuíam uma. As imagens de Nossa Senhora também se multiplicavam infinitamente. O mesmo se pode dizer das suas festas. 

(Publicado em Passos n. 48, março/2004)

História da Mariologia

Culto, devoção e estudo

A Mariologia é uma componente da Teologia cristã que se dedica ao estudo da Virgem Maria, desde a sua vida até à interpretação dos diversos dogmas e doutrinas marianos. A sua natureza (a Imaculada Conceição, a Assunção da Virgem, a sua Coroação…), o seu papel na Salvação, como mediadora e co-redentora, as suas advocações ou invocações (Maria Mãe da Igreja, Mãe dos Céus, do perpétuo Socorro, da Esperança, Auxiliadora…), as formas de veneração e culto (mariano, ou hiperdolia), bem como a sua liturgia, são dimensões da Mariologia. Na Igreja Católica, como na Anglicana e nas Ortodoxas orientais, a devoção mariana, logo a Mariologia, está solidamente implantada e dotada de grande importância na Teologia como na espiritualidade.

A Mariologia enquanto conhecimento especializado, como parte da Teologia, só foi individualizada na Idade Média. O primeiro milénio do Cristianismo conheceu Maria, mas sempre uma relação com Jesus, o protagonista quase exclusivo das homilias, tratados, discursos. A Patrística, por exemplo, centrou-se nas grandes controvérsias teológicas de matriz cristológicas, menos em questões marianas, plasmadas muitas vezes em textos apócrifos, como o Protoevangelho de Tiago (início do século III) e a “Vida de Maria”, do monge Epifânio. Mas há que recordar Santo Inácio de Antioquia (morre c. 110), que na sua luta anti-docetista (heresia) aponta para uma doutrina mariológica, afirmando a concepção virginal e autêntica de Jesus por Maria, um dos Mistérios de Deus. Surge, todavia, subordinada à Cristologia.

Uma das notas desta épica é o paralelismo Eva e Maria, Ave Eva, Ave Maria: São Justino (séc. II) segue a linha de Santo Inácio, continuada também por São Irineu de Lião (sécs. II-III) – que desenvolve sobremaneira o plano teológico daquele paralelismo Eva e Maria como redentora – e Tertuliano (que morre em 222), que reforça o sentido salvífico de Maria na redenção do pecado original de Eva…Ave. A patrística seguirá por esta via antitética, cada vez com mais detalhe e discussão, numa significação soteriológica (salvação) crescente e na analogia da relação Maria e Igreja. Mas era ainda uma mariologia cristocêntrica…

O culto e devoção a Maria podemos afirmar que nasce em finais do séc. IV, na sequência da liberdade de culto introduzida por Teodósio (380), que convocou um concílio mais tarde, em 431, em Éfeso – pretenso local da vida, morte e Assunção da Virgem – onde se declarou a maternidade divina de Maria, autorizando-se então o seu culto como Mãe de Deus (Theotokos). A arte ajudará depois na difusão da figura, a partir de uma teologia crescente, embora ainda subordinada à Cristologia.

Mariologia medieval

Na Idade Média, após os dogmas cristológicos serem definidos, a piedade marial ganhou um maior espaço e autonomia teológica. Para tanto bastou o surgimento do Rosário, mas também das inúmeras devoções marianas e das revelações privadas que ocorreram a vários santos. O Tratado da Santíssima Virgem, de São Bernardo de Claraval (morreu em 1153) é a obra mariológica que marca este período. As catedrais dedicavam-se então a Santa Maria, como também as nações que nasciam, como Portugal. Maria ganhava uma expressão artística, suportada pela importância teológica crescente. No período medieval surgiram também as grandes controvérsias mariológicas, principalmente no que diz respeito à Imaculada Conceição de Maria. As universidades eram os centros desta discussão acesa entre teólogos franciscanos e dominicanos. Estes últimos tiveram desde sempre uma forte devoção ao Rosário, usando-o no hábito, com todo um histórico devocional mariano desde São Domingos de Gusmão. Mas foram os filhos de Francisco de Assis que mais pugnaram pela defesa da imaculada concepção de Maria, com destaque para o Beato João Duns Escoto. Dotado de subtileza argumentativa e força dialéctica, ficou famoso pela firme defesa da Imaculada Conceição: dizer que Maria não contraiu a mácula do pecado original não só não nega a universalidade da redenção, mas mostra também Cristo como Redentor perfeito, pois uma redenção que inclusivamente preserva do pecado é mais perfeita que a que simplesmente livra dele, uma vez que já foi contraído. A devoção crescente a Maria (e a récita do Rosário) incrementaram os estudos e reflexões mariológicas naquela época.

A devoção à Imaculada Conceição e a importância de Maria na espiritualidade franciscana – afectiva, passional, humilde – são uma das notas importantes da Mariologia medieval. Esta sublinha-se por um desenvolvimento doutrinal que assenta na maternidade divina e na perpétua virgindade de Santa Maria, na sua santidade total e inequívoca, concebidas como verdades pertencentes à Fé. Daí se evoluirá para as prerrogativas marianas, especialmente da Imaculada Conceição, da Assunção, da Mediação e da Realeza de Maria, ampliando e aprofundando os temas e valores recebidos da Patrística, para além da influência do Cristianismo oriental. A piedade mariana era intensa no povo cristão nos fins da Idade Média, mas com algumas manifestações que roçavam a superstição e o sentimentalismo, desvios reducionistas que atiçaram críticas dos Protestantes, mas reforçaram o estudo mais rigoroso e fundamental da Mariologia, de forma a salvaguardar o culto de Maria.

Época Moderna

Foi neste período que nasceu a Mariologia Sistemática, num período marcado pela Teologia sistemática. A Reforma Protestante promoveu a eliminação dos santos e um ataque em toda a linha a Maria (salvo algumas excepções, como os Anglicanos). Mas não foi por isso que Maria desapareceu da Teologia, ou do culto universal. Aparece então o primeiro tratado mariano (Francisco Suárez, 1584) e nasceu até o termo “mariologia”, com Plácido Nígido (1602). O período barroco, pós Trento (1545-63), até ao séc. XVIII, será marcado por uma piedade mariana imensa, visível na arte, que aclama e realça a iconografia mariana e a sua conotação com a Igreja renovada. A teologia mariana está agora claramente afirmada e é uma das componentes mais expressivas da Teologia. A Mariologia torna-se devocional, com o Iluminismo racional dos séculos XVIII e XIX, com um maior cunho afectivo, na qual se misturam elementos simbólicos e racionais. Assim, nasce o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort, por exemplo, obra referencial da Mariologia iluminista e que marca a centralidade mariana de muitos institutos religiosos coevos e a espiritualidade da época. Esta marcou muitas das ordens e congregações religiosas, como os Jesuítas, Capuchinhos, Suplicianos, Eudistas, Redentoristas, Monfortinos, entre outras mais antigas, monásticas ou mendicantes. O rosário ganhou uma força ainda maior a partir do século XVI, com destaque para a sua plenitude no século XVIII e a posteriori. A devoção do “de Maio” como Mês de Maria nasceu em Seiscentos, na Itália, a qual se transformou numa forma de piedade corrente no séc. XVIII.

Do século XIX aos nossos dias

Pio IX proclamou em 1854 o dogma da Imaculada Conceição de Maria, um século antes de Pio XII fazer o mesmo em relação à Assunção da Virgem em corpo e alma aos céus. A Mediação de Maria foi considerada proclamação dogmática no séc. XX, ao passo que Bento XV, no primeiro quartel daquele século instituiu a festa de “Maria, mediadora de todas as graças”. As Aparições de Lourdes e de Fátima, entre outras, trouxeram forte impulso à Mariologia, que já vinha recebendo forte expressão desde a proclamação do dogma da Imaculada. As festas litúrgicas relacionadas com Maria são fruto também da definição teológica cada vez mais fundamentada e sistemática e da importância da Mariologia.

A Mariologia no século XX é marcada pela sua agregação à Nouvelle Theologie. Nos anos sessenta iniciou-se um movimento de retorno às fontes do Cristianismo (Sagradas Escrituras, Patrística e Sagrada Liturgia), que tem como maiores expoentes Joseph Ratzinger, Hans Urs von Balthasar e Henry de Lubac. A Mariologia assente apenas em argumentos da tradição e do raciocínio escolástico, bem como do seu método dedutivo, torna-se decrépita e é ultrapassada. Regressou-se assim às origens e passou a considerar-se a Virgem Maria como sendo verdadeiramente Senhora, mas também criatura, Mãe de Deus e Mãe do mundo. Apesar da redução de Maria em certos sectores à simples “Maria de Nazaré”, humana mas menos divina, de uma certa desacreditação ou minimalização do seu culto, principalmente nos anos 70, a Mariologia não esmoreceu, muito em parte para continuar o paulatino estudo e fundamentação teológica da figura de Maria.

Há um certo ??? de alguns mariólogos e de muitos fiéis aos grandes tratados marianos antigos, de Montfort, São Bernardo ou de Santo Afonso de Ligório, acreditando alguns que estaremos numa crise da Mariologia. Mas aqueles tratados são hiperbólicos na linguagem, mesmo que verdadeiros e eficazes para o cultivo da fé cristã católica.

Devemos estar atentos às orientações de Maria, mediadora, como ela nos demonstrou nas bodas de Caná. É preciso que fiquemos atentos à sua voz atenta, como modelo de vida cristã, como refere a Mariologia actual. São Francisco de Assis dizia: «preguem, mas se necessário usem palavras». O testemunho de vida é a pregação mais eficaz. Neste sentido, afirma a Mariologia moderna, a Virgem Maria é o modelo a ser imitado, porque não imita a si mesma, mas a Deus. A Mariologia continua viva, suscita atenções e aponta modelos, caminhos, com Maria.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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